” Tudo bem, até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento… “
À prova de quedas. É assim que deve ser meu celular, meus óculos, o chaveiro que ganhei de presente, o copo d’água que em um piscar de olhos deixa de estar em minha mão e… Já era. Depois de crescer, ou ficar mais velha, ouvindo aquela historinha do ‘você é desastrada demais, menina!’, me atentei de que o que deve mesmo ser a prova de quedas é o meu coração.
Solto, ele voa longe. Quando me distraio, não existem cordas que me prendam, feridas que me doam, cicatrizes que me paralisem. Eu o deixo livre. Eu me deixo livre. Ou deixava. Hoje conheço uma palavra que consegue frear, estancar e até segurá-lo: trauma. Aprendi com as decepções e com a doce loucura de me entregar. Aprendi com as histórias vividas pelas almas amigas e divididas entre conversas de bar ou brigadeiro. Aprendi que a verdade mesmo é que vivemos à espera de. À espera de se formar, à espera do trabalho dos sonhos, à espera de começar de novo, à espera de que dessa vez dê certo (somos tão parecidos!), à espera da época preferida do ano, de um encontro, de um reencontro… E quando a espera não compensa, criamos um bloqueio e a sensação de que nunca mais devemos esperar por. Traumatizamos. Berramos aos quatro cantos, nos isolamos ou nos exportamos, pensamos em desistir. Mas só pensamos. Logo passa a vontade de desistir, acredite menina.
Aliás, volte a acreditar. Escapar de decepções e traumas, não se iluda, só mesmo vivendo-os. Engolindo-os. Digerindo-os até a última porção. Mesmo que lhe causem feridas no estômago ou cicatrizes na alma. Para gastrites, existem antiácidos. Para cicatrizes, tempo. Até que chega o momento que elas nem paralisam mais. Porque ainda não inventaram celulares, chaveiros ou óculos inquebráveis mas, existem sim pessoas, sentimentos e ligações que não se rompem. E principalmente, porque existem corações que, mesmo despedaçados, são à prova de quedas.




Perdidos, tímidos e caminhando trôpegos em direção ao desconhecido. Foi assim que nos encontramos e é assim que chegamos aqui. Prontos para despedir, lágrimas acumuladas, sorrisos festivos de quem diz: Conseguimos!
Acredito que o maior grito da saudade, porém, será quando chegarem os finais de semana. Quando surgirem os recessos da correria do cotidiano dessa loucura chamada jornalismo que nós escolhemos. Aí sim, nesses momentos, ouviremos o grito da saudade ainda mais alto. Gritando cada música que cantamos juntos, cada risada que compartilhamos, cada dificuldade que superamos, cada plano que traçamos, cada objetivo que conquistamos. Porque foram tantos! Porque foram divididos. Porque foram vividos com a pureza que só os que se entregam de verdade são capazes de conhecer.
